“Ser mãe deve ser escolha, não obrigação”

Mulheres que decidiram não engravidar ouvem constantemente frases como: “toda mulher nasceu pra ser mãe”, “se você não tiver filho, vai se arrepender”, “você fala que não quer ser mãe agora, depois muda de ideia”. Esses pensamentos perpassaram séculos e continuam presentes de diversas formas na sociedade. De acordo com a psicóloga Jéssica de Oliveira […]

Publicado dia 01/02/2018 às 00:59

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Mulheres que decidiram não engravidar ouvem constantemente frases como: “toda mulher nasceu pra ser mãe”, “se você não tiver filho, vai se arrepender”, “você fala que não quer ser mãe agora, depois muda de ideia”. Esses pensamentos perpassaram séculos e continuam presentes de diversas formas na sociedade. De acordo com a psicóloga Jéssica de Oliveira Santos (CRP-GO 09/9976), a expectativa, decorrente de fatores culturais, ainda é de que a mulher, mais cedo ou mais tarde, se torne mãe e cumpra sua “função” materna e biológica. Nessa perspectiva, para ela, a maternidade pode de fato ser vista como uma obrigação.

A cobrança social da maternidade foi construída ao longo das décadas e reafirmada por leis, normas e padrões de comportamento passados de geração em geração. “Por esse motivo, devemos estar conscientes das mudanças sociais que têm acontecido e começarmos a nos questionar se o desejo de ser mãe, por exemplo, é algo genuíno ou um desígnio atravessado pela vontade dos outros”, explica. Embora o número de mulheres que optem por não ter filhos tenha crescido, ainda existem várias barreiras. A Lei do Planejamento Familiar, regulamentada no Brasil pela portaria n° 9.263/96, por exemplo, diz que a laqueadura – cirurgia de esterilização feminina que a impede a concepção – só pode ser realizada em mulheres de 25 anos ou por aquelas que tenham 18 anos e dois filhos, seja no Sistema Único de Saúde (SUS) ou em hospitais particulares.

Para a psicóloga, quando cobranças sociais acontecem é importante manter um plano de controle sobre a situação. “A melhor maneira de lidar com os acontecimentos é expondo que a opção pela maternidade é algo pessoal, uma escolha intransferível, que você pode ou não mudar de ideia, mas que esse é o seu posicionamento”.

Além do desconforto da cobrança social sobre a maternidade, qualquer tipo de cobrança pode causar impacto na vida afetiva, social e psíquica da mulher. Jéssica explica que psicopatologias como depressão, ansiedade e fobia social, que geralmente estão ligadas às sensações e sentimentos de desajustamento social, insegurança e falta de validação, podem ser associadas à cobrança excessiva sobre o assunto.

Segundo a psicóloga, a melhor forma de enfrentar as cobranças e tomar a decisão certa é por meio do autoconhecimento. “Quando a mulher passa a perceber o que a motiva, para quê e para quem ela age de determinada forma, e seus padrões de comportamento e pensamento, tem a oportunidade de se conhecer e agir de forma mais consciente e alinhada com o que acredita. Além disso, o caminho para o questionamento e para desconstrução é um exercício diário”, afirma.