Violência contra a mulher: quando o amor machuca

Viviane Guimarães PSICÓLOGA O amor é um dos sentimentos mais plenos, capaz de preencher os vazios existenciais de uma rotina algumas vezes cruel. Contudo, existe uma linha tênue entre o sentimento saudável e o danoso. A máxima de que todo casal enfrenta problemas na relação é verdadeira, entretanto, alguns desenvolvem uma relação de poder e […]

Publicado dia 10/05/2017 às 19:30

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Viviane Guimarães
PSICÓLOGA

O amor é um dos sentimentos mais plenos, capaz de preencher os vazios existenciais de uma rotina algumas vezes cruel. Contudo, existe uma linha tênue entre o sentimento saudável e o danoso. A máxima de que todo casal enfrenta problemas na relação é verdadeira, entretanto, alguns desenvolvem uma relação de poder e controle abusivos que causam danos emocionais, psicológicos e físicos.

De acordo com a psicóloga Viviane Guimarães, fundadora da escola de relacionamentos Felizes Para Sempre…, relacionamento abusivo é “quando um exerce poder e controle sobre o outro, o que acarreta em comportamentos e situações de abuso”, afirma. Ainda segundo a especialista, as agressões se manifestam de variadas formas, mas com a mesma consequência, o abalo total da autoestima, as mulheres são as principais vítimas.

A carência mútua e questões patológicas, de ambos os lados, propiciam, segundo Viviane, a permanência em um relacionamento abusivo. Mas é válido ressaltar que “para cada abusador existe uma pessoa que se permite ser abusada”, opina. Nesse sentido, a identificação, o enfrentamento do medo e a ajuda especializada contribuem para o fim dessa situação.

Em virtude da herança histórica, é comum a mulher atribuir à agressão uma característica de normalidade, o que dificulta a identificação e remediação do problema. Por isso, a psicóloga recomenda atenção aos sinais de uma relação insatisfatória, que se manifesta no comportamento do agressor desde o início do relacionamento.

Segundo a especialista, o abusador “desmerece a mulher, gosta de mostrar vantagem e exerce controle sobre ela. A identificação é complicada justamente porque é sútil, ela acontece no momento em que o ciúme e a competição passam a prejudicar o casal”. A psicóloga afirma que todos os relacionamentos enfrentam momentos de crise, contudo, a não resolução das questões propicia a agravo da situação.

A vítima geralmente é acometida com tristeza e tem a autoestima detonada. Nesse jogo, o abusador alça status de superioridade enquanto a parceira se aquieta e se inferioriza. Outra característica desse tipo de relação é o isolamento do contato com a família e os amigos. “O abusador quer que o outro precise dele, psicológica, emocional, financeira e até mesmo familiar”, revela.

Conforme explica Viviane, nesse estágio do relacionamento “a vítima passa a acreditar que não sobreviverá sem a presença do agressor e aceita todos os abusos cometidos”. Quando a mulher não consegue evitar e coibir o abuso, é preciso buscar ajuda profissional, psicológica e, se for preciso, jurídica.

Devido a vulnerabilidade emocional, as mulheres são comumente vítimas de relacionamentos abusivos. Em quase 99% dos casos elas são quem sofrem o abuso. Todavia, é notória a dificuldade em deixar essa situação, porque além da dependência emocional, existe a financeira e, sobretudo, a jurídica (em casos de filhos).

Para Viviane, “o grande desafio para as mulheres que sofrem abuso na relação é enfrentar o medo e colocar limites para o parceiro. O medo está em deixar o agressor e passar fome, perder os filhos, apanhar e morrer. O desafio então é enfrentar esse sentimento, reagir e se impor para que abuso termine”, determina. Mas para isso é preciso perceber que a situação está acontecendo.

Os relacionamentos vivenciam momentos de crise, no entanto, o sofrimento intenso para ambos os lados marcam o abuso da relação. “O agressor também sofre porque a situação é desagradável”, comenta Viviane. O abusador, nesse sentido, pode perceber a agressão e buscar ajuda. Viviane relata um caso em que o esposo reconhecia que cometia excessos, mas a esposa apenas se sentia infeliz e não se dava conta do que acontecia.

A ajuda psicológica serve não apenas para vencer o medo do novo e do diferente, mas para enfrentar essa situação que gera angústia. A psicóloga ainda ressalta a importância do apoio externo. “A presença e apoio da família e assistência jurídica são cruciais para que a vítima consiga lidar com tudo isso”.

Todavia, Viviane lembra que as impressões da sociedade são as que menos importam. “Os membros da família e da sociedade, que forem importantes para a pessoa, manifestarão compreensão e apoio, afim de contribuir para que a vítima acredite nela mesma, fortaleça a conexão com seu eu interior e sua autoestima”. Desse modo, ela se firmará como alguém que viveu e superou uma relação prejudicial.

Essa conscientização é indispensável para quem sofreu abuso emocional, psicológico ou físico. A especialista reafirma que essa concepção contribui para que “a mulher perceba onde permitiu o abuso e quais foram os fatores emocionais que desencadearam essa agressão. Ela saberá se impor diante de um novo relacionamento, ou mesmo da família e sociedade”, aponta.

Para isso, é preciso ficar alerta e ver a forma que o relacionamento está sendo conduzido. A psicológica aconselha a procura ajuda profissional logo que identificado alguns dos sinais supracitados. Isso contribui para que mulheres, sobretudo aquelas que não conseguem encarar o medo e se impor diante de uma relação, a não sofrer abusos. O relacionamento deve ser construído para agregar sentimentos bons, prazeres e paz interior, quando nada disso é recebido em retorno, é indício que está na hora de repensar essa relação.