O médico e a tecnologia

Nos últimos 100 anos, a ciência teve uma evolução em velocidade exponencial, trazendo um extraordinário progresso no conhecimento muito mais significativo obtido até agora. Os alicerces básicos, isto é, a escrita e a matemática, foram desenvolvidos, e assim foi possível compilar e progredir o conhecimento e a dinâmica do pensamento. Somente no século XVI teve […]

Publicado dia 05/03/2017 às 22:24

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Nos últimos 100 anos, a ciência teve uma evolução em velocidade exponencial, trazendo um extraordinário progresso no conhecimento muito mais significativo obtido até agora. Os alicerces básicos, isto é, a escrita e a matemática, foram desenvolvidos, e assim foi possível compilar e progredir o conhecimento e a dinâmica do pensamento. Somente no século XVI teve o início da formatação da ciência como atividade acadêmica. Criou-se a pesquisa racional para novos conhecimentos e sua confirmação matemática e, somente após Darwin (foto) formular a teoria do processo evolutivo, no século XIX, tudo mudou, uma vez que se acreditava que era tudo imutável no campo da biologia. Era tudo tão lento que se tinha como parâmetro na área biológica: “pesquisar é observar e experimentar, enquanto a observação ‘escuta’ a natureza, a experimentação a interroga e a obriga a revelar em seus fenômenos”. Nesses 50 anos houve uma incrível velocidade na disseminação da informação. A medicina incorporou essa mudança trazendo mais dinâmica à nossa compreensão em relação à fisiologia e à fisiopatologia e ao mesmo tempo refinando de maneira impressionante os métodos diagnósticos e as opções de tratamento clínico e cirúrgico.

Levando em conta esses avanços: genética, métodos de investigação por imagem, técnicas cirúrgicas com microscópio, e endoscópio, e mais recentemente “navegadores” que são GPS nas cirurgias e os ensaios com cirurgia robóticas que são realidades em várias especialidades: próstata, faringe, laringe. Procedimentos cirúrgicos com laser são rotinas consagradas, sobretudo em dermatologia, oftalmologia, otorrinolaringologia etc., tudo vem mudando rápido, menos a essência do homem moderno.

Nossos medos, incertezas e a eterna busca da compreensão de onde estamos e para o que viemos ainda não estão resolvidos de forma definitiva, de modo que o cenário atual ainda permite a susceptibilidade a crenças de diversos matizes. Mesmo com todo esse novo conhecimento, ainda há espaço para intolerância, fanatismo religioso e político, segregacionismo, guerras e outras mazelas do nosso cotidiano.

Os receios diante das doenças se exacerbam e, por isso, como médicos, devemos ter em mente que o diagnóstico é uma informação que repercute de medo diferente entre as pessoas de forma positiva ou negativa no estado físico e mental.

Por conta desses temores e incertezas, a obtenção dos dados de forma cuidadosa dos dados relativos à doença, a nossa velha anamnese, é um exercício na arte de compreender o próximo.

Assim como é fundamental o conceito de que a tecnologia não dispensa a relação humana no exercício da medicina, também é lógico e fundamental mantermos o conceito de que a tecnologia não substitui o raciocínio clínico.

Isso reflete principalmente na formulação das hipóteses diagnósticas e na seleção dos exames complementares que devem ser baseados no nosso conhecimento sobre a expressão clínica e o entendimento fisiopatológico de diversas doenças da nossa medicina.

Infelizmente, tem sido mais frequente a prática de que seria mais eficiente e rápido solicitar um número exagerado ou até incontável de exames e depois pensar no diagnóstico. Além de inverter a lógica da nossa ação, essa conduta expõe o paciente a riscos, como irradiação e estresses desnecessários, além de aumentar drasticamente as despesas relacionadas ao diagnóstico, o que leva à contramão por parte das seguradoras e da máquina pública na contenção de gastos.

Dessa forma, acho que devemos comemorar entusiasticamente as novidades do conhecimento e incorporar as novas formas de diagnóstico e tratamento, mas é essencial mantermos a nossa melhor postura como médico: alguém que busca com eficácia e humanidade ajudar o próximo, elucidando o seu problema e direcionando da melhor forma possível o tratamento de suas doenças.

Acredito que as boas escolas de medicina e os bons serviços da residência ainda ensinam baseados nesses princípios, e aconselho a todos que não se esqueçam disso, pois, nesse novo mundo tecnológico, até na Wikipédia está escrito: “O papel do médico e o significado da palavra variam significativamente ao redor do mundo, mas como compreensão geral, a ética médica requer que médicos demonstrem consideração, compaixão e benevolência frente a seus pacientes”, portanto, no exercício da medicina, tecnologia e humanismo caminham sempre juntos.