“O médico,o imperador, e a misteriosa doença da imperatriz”

Nilzio Antônio da Silva | Acadêmico Titular da AGM, Cadeira n° 7 Na Reunião Científico-Cultural da AGM, realizada em colaboração e nas dependências da Sicoob, no dia 27 de abril de 2016, a Profª Dra. Lícia Maria Henrique da Mota, reumatologista de Brasília, docente do Curso de Pós-Graduação em Saúde da UNB, fez uma palestra […]

Publicado dia 07/03/2017 às 16:24

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Nilzio Antônio da Silva | Acadêmico Titular da AGM, Cadeira n° 7

Na Reunião Científico-Cultural da AGM, realizada em colaboração e nas dependências da Sicoob, no dia 27 de abril de 2016, a Profª Dra. Lícia Maria Henrique da Mota, reumatologista de Brasília, docente do Curso de Pós-Graduação em Saúde da UNB, fez uma palestra sobre o tema “O Médico, o Imperador, e a Misteriosa Doença da Imperatriz”.

Os personagens dessa palestra são o notável neurofisiologista Charles-Edouard Brown-Séquard, D. Pedro II e Dª Tereza Cristina de Bourbon-Duas Sicílias,Imperador e Imperatriz do Brasil.

A descoberta do relacionamento entre essas históricas figuras, que resultou na publicação-título dessa palestra (1), se deu no Museu Imperial de Petrópolis, quando o grupo de estudos, do qual faz parte a Dra. Lícia, teve acesso a uma carta de Brown-Séquard a D. Pedro II, datada de 01/06/1876. Em um dos trechos o médico lamentava não poder ajudar no diagnóstico e tratamento de uma doença da Imperatriz, sem que visse a paciente e tivesse mais informações sobre o caso.

Movidos pela curiosidade que impulsiona o conhecimento, o grupo de estudos foi pesquisar na Europa a correspondência enviada por D. Pedro II que teria motivado a resposta de Brown-Séquard. Encontraram em Londres, na qual o apelo do Imperador para recuperação da saúde da Imperatriz, com data de 24/02/1876, expunha os dados de bom estado geral e grande sofrimento causado por “dores nas pernas, no pescoço, na cabeça e couro cabeludo, dois pontos sensíveis na espinha dorsal”.

As informações apresentadas na palestra da AGM/Sicoob, e sua publicação(KURISKY,2016), proporcionam o conhecimento de interessantes aspectos das biografias dessas três personalidades do século XIX.

O médico, Brown-Séquard(1817-1894), nascido na Ilha Mauritius, no Oceano Índico, filho de marinheiro americano e de mãe de origem francesa, tentou carreira literária/musical, em Paris, sem sucesso. Decidiu, então, estudar Medicina, obtendo sua colação já perto dos 30 anos de idade. Em seu trabalho de conclusão de curso, discorreu sobre os aspectos fisiológicos de vias motoras e sensitivas. Por razões políticas emigrou para os Estados Unidos, onde em quase 20 anos, trabalhou em diversas universidades, entre as quais Harvard.Voltou para Paris, onde continuou pesquisas, tornando-se destacado membro da renomada Academia de Ciências.

D. Pedro II (1825-1891), lembrado como probo e humano, governou o Brasil por 49 anos. Seu começo de vida foi triste, pois seus pais o deixaram aqui ainda criança para assumir o reinado em Portugal, e morreram sem reencontrá-lo.Tornou-se um homem culto e interessado em ciências, angariou simpatia e amizade das mais representativas expressões da cultura. Frequentava as reuniões dos mais importantes médicos da Europa, tornando-se amigo de muitos luminares, entre os quais, Brown-Séquard. Demonstrou seu grande amor ao Brasil, quando ao ser destituído pelos republicanos, solicitou permanecer no Brasil, e quando ao morrer, pediu para ser enterrado aqui. Não foi atendido, mas depois de muitos anos, seus restos mortais foram transladados e sepultados em Petrópolis.

D. Tereza Cristina(1822-1889), Princesa Italiana, jovem culta, apreciadora de artes e Arqueologia, casou-se por procuração,sem que conhecesse pessoalmente D. Pedro II.Vindo para o Brasil, deixou a confortável corte onde vivia para se instalar num país distante, onde o povo era rude, com hábitos ainda incivilizados.Conta-se, que de início, houve uma intenção, por parte de D.Pedro II, em desfazer o casamento por tê-la achado menos bonita e com mais peso do que vira nos retratos que ele recebera antes.Mas, a história do casal foi de harmonia, companheirismo e tiveram 4 filhos. Era muito discreta, recebendo a denominação de “ Imperatriz Invisível”, contudo soube conquistar a simpatia da população, sendo também chamada de “Mãe dos Brasileiros”.Quando morreu, em Portugal, D.Pedro II escreveu um poema no qual expressou muito amor por ela.

Qual seria a misteriosa doença que atormentou por vários anos nossa Imperatriz, e que levou seu marido a solicitar a opinião de Brown-Séquard? Não seria possível responder, pelas razões que o médico francês menciona em sua carta ao nosso Imperador. Mas, como em outras situações em virtude do interesse histórico, é possível exercitar um raciocínio diagnóstico com os dados disponíveis. O grupo de pesquisadores de Brasília defende a possibilidade de um quadro desconhecido à época, que causa muita dor, em diversos segmentos corporais, sem alterações objetivas, persistente, com preservação do estado geral, como descrito por D. Pedro II na carta a fibromialgia (WOLF, 2011).Descrita só anos após a morte de D.Tereza Cristina, tal síndrome, mesmo com os notáveis avanços da Medicina, segue causando muito desconforto aos pacientes, e como um desafio para aqueles que a enfrentam.