Deficiência auditiva não é sinônimo de incapacidade

Comunidade de não ouvintes busca cada vez mais a profissionalização e a inserção no mercado de trabalho

Publicado dia 30/09/2012 às 09:30

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Ouvir mal é um sinal da deficiência auditiva. Este problema pode ser identificado quando há diminuição da capacidade de percepção normal dos sons. Quem não ouve de maneira funcional os ruídos do dia a dia pode ser considerado surdo, e quem escuta com alguma dificuldade, parcialmente.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Oftalmologia (SBO), o grau de surdez é medido em decibéis (dB) e pode ser de pelo menos quatro tipos: leve, médio, severo e profundo. Cada uma das classificações representa o número de dB necessários para que a pessoa consiga ouvir. Leve, de 20 dB a 40 dB, médio, de 40 dB a 70 dB, e severo, de 70 dB a 90 dB. Já o grau profundo é a partir de 90 dB, e é dividido em outros três tipos. O primeiro é 90 dB, o segundo, entre 90 dB e 100 dB, e o terceiro, acima de 100 dB.

Uma em cada mil crianças nascem com a surdez profunda. De acordo com censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 2,6 milhões de brasileiros apresentam algum grau de surdez, e outros 7,2, grande dificuldade para ouvir. O número representa 5,2% da população do País.

Mas o número de indivíduos que possuem alguma deficiência auditiva mais leve é ainda maior. Num total de 190 milhões de pessoas, 14,8% da população se enquadra nesta margem de problemas ligados à audição. Este valor representa 28 milhões de brasileiros.

O IBGE estima que o número continue a crescer, pois, além do crescimento populacional, a quantidade de indivíduos idosos também tende a aumentar, conforme pesquisa realizada em 2010. Outro ponto determinante é que, apesar do exame obrigatório da orelhinha, que serve para identificar deficiências auditivas em crianças com até seis meses, muitas vezes ele não é feito. Neste período, há casos reversíveis, e o exame tardio acaba não contribuindo para a solução desta realidade.

Superação
Yasmin de Carvalho Reis é estudante de design gráfico e tem surdez profunda. Apesar de seu caso ser elevado, ela consegue ouvir alguns sons com a ajuda de aparelho e até falar, graças à fonoaudiologia. Ela conta que seu problema aconteceu em decorrência da rubéola que sua mãe teve durante a gravidez. “Às vezes falo faltando som nas palavras”, explica. Mas ela enfatiza que, mesmo para aqueles completamente surdos, ainda existe a Linguagem Brasileira de Sinais (Libras).

Ela diz que a detecção do problema durante a infância é positivo em muitos casos. “Quanto mais cedo melhor, pois pode colocar aparelho auditivo ainda bebê e é mais fácil de adaptar e conseguir falar, e quanto mais tarde colocar aparelho auditivo, adulto é mais difícil, pois não consegue oralizar direito.” E ainda completa: “Tem surdo que não usa aparelho auditivo, pois não tem nenhum resultado, infelizmente.”

“Prefiro falar, pois acho mais fácil do que falar Libras, e tem muita gente que ainda não conhece essa língua.” Para ela, muita dedicação tem dado resultados. “Para uma pessoa com surdez profunda, é difícil falar oralizando, mas, com muito treinamento na fonoaudiologia, ajuda muito, se estiver com muita vontade.” Os sons que ela escuta por meio do aparelho auditivo não são ‘bons’, mas ela reitera que é melhor do que “não ouvir nada”.

Vida normal
Yasmin faz graduação na Faculdade de Tecnologia do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac). Ela conta que a instituição é muito bem equipada, o que a ajuda muito. De acordo com ela, o local oferece intérprete sempre ao lado do aluno em todas as aulas, além de professores dedicados e preparados.

“Acho isso ótimo, pois muitas faculdades não têm esse tipo de serviço. Hoje, é comum  ver muitas pessoas com problemas auditivos graves acreditarem que têm capacidade de fazer faculdade por causa disso, mas essa realidade já está mudando”, ressalta Yasmin. 

“Muita gente me achava burra e dizia que eu não conseguiria aprender nada”, disse a garota sobre o preconceito que sofria na graduação.

Ela ainda conta que em muitos empregos as pessoas pensam que os surdos não têm capacidade de executar as funções corretamente. Mas a estudante afirma não se deixar abater e tenta mostrar todos os dias que consegue fazer o trabalho como qualquer outro. “Apesar de uns pequenos problemas como atender o telefone ou ouvir música, é possível, sim. Aprendi a lidar com esta situação e vivo perfeitamente bem.”

Deficiência não
A professora e mestre em linguística aplicada Claudney Maria de Oliveira e Silva não utiliza o termo deficiência auditiva. “Classificar desta forma é uma abordagem médica, mas para mim os surdos apenas utilizam uma linguagem diferente, como outro idioma.”

Claudney trabalha com a comunidade surda goiana há pelo menos 20 anos e desde 2001 está presente no meio acadêmico. Em 2006, foi convidada para participar da criação do curso de Letras/Libras na Universidade Federal de Santa Catarina (Ufsc), o primeiro do País, e atuou da Capital, por meio de um dos polos do curso. “Este curso era à distância e as aulas podiam ser ministradas daqui. Foi um passo muito importante, que abriu a possibilidade de cursos presenciais, como o da Universidade Federal de Goiânia (UFG).”

Desde 2009, a UFG vem trabalhando com o curso de Letras/Libras, que é uma modalidade do curso de Letras. A mestre explica que no ano inaugural o vestibular foi como qualquer outro e foram aprovados para o curso 40 candidatos. Já no segundo ano, algumas mudanças foram feitas para dar mais condições aos alunos não ouvintes, e três foram aprovados.

“Durante as provas para formação da segunda turma houve a presença de intérpretes  acompanhando os candidatos surdos e correção da redação diferenciada por um banca de linguistas que conhece a linguagem de sinais. Deste modo, eles primam pelo conteúdo, e não pela forma.” Ela explica que os surdos tendem a transpor a linguagem de sinais para o português escrito e acabam cometendo algumas inadequações gramaticais. “É como quando transpomos ao pé da letra o português para o inglês.”

Já no vestibular do ano passado, quando houve tradução das provas para Libras, 13 passaram, e, neste ano, foram 15 aprovados. Um dos pontos destacados por Claudney é o programa de inclusão social feito pela universidade. Segundo ela, as surdos que se inscrevem para Letras/Libras concorrem entre si a 15 vagas. “São 15 vagas garantidas. Este ano, isto já ocorreu.”

Possibilidades
Para Claudney, as dificuldades passadas pelos surdos são causadas pela sociedade. “Eles são a minoria. Acredito que já tenha melhorado muito, mas nós, de modo geral, não facilitamos o acesso para eles”, enfatiza e compara a situação deles a um ouvinte que esteja em uma comunidade japonesa sem qualquer ajuda.

Apesar de tudo, ela acredita que a comunidade surda possa ter uma vida completamente normal. “Não acho, eu vejo que é possível. Eles se casam, trabalham, têm filhos, têm problemas, alegrias. Só são diferentes porque são minoria.”

A professora disse estar empolgada com a possibilidade de uma escola bilíngue, português e Libras, na Capital, a partir do ano que vem. A Escola Municipal Maria Luiza, no Setor Aeroporto, tem planos para iniciar desde o fundamento a disciplina de Libras em sua grade. “E ainda mais, será tudo nas duas línguas.”

“Me sinto privilegiada”, diz a mestre sobre trabalhar com este público. “No momento histórico desta comunidade, tenho dado minha contribuição. Sempre vi pessoas capazes e fico feliz cada vez mais, mesmo que aos poucos, com a sociedade vir dando condições para os surdos mostrarem seu potencial”, finaliza.