Para onde vão as nossas lembranças da infância? Freud explica

HÉLIO MOREIRA Outro dia, passeando com minha neta Marília pelos jardins da Santa Tereza, observei o entusiasmo com que ela observava os detalhes do mundo que a rodeava, ali uma flor mais saliente e perfumada, acolá a escultura da “Deusa do Cerrado” que as mágicas mãos do artista Luiz Olinto colocou em destaque; quase de […]

Publicado dia 09/05/2017 às 18:03

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Email this to someone

HÉLIO MOREIRA

Outro dia, passeando com minha neta Marília pelos jardins da Santa Tereza, observei o entusiasmo com que ela observava os detalhes do mundo que a rodeava, ali uma flor mais saliente e perfumada, acolá a escultura da “Deusa do Cerrado” que as mágicas mãos do artista Luiz Olinto colocou em destaque; quase de frente à nossa casa, um pássaro, no caso um “João de barro”, sentou-se em um arbusto bem perto de nós; para todas as coisas havia o questionamento: o que é isto? O que é aquilo? Por quê? Por quê?

Fiquei imaginando: quando ela crescer, do que se lembrará? Algumas delas, poucas, poderão ser recuperadas com o auxílio de um adulto que as presenciou e tentará ajudar com narrativas do acontecido.

Segundo Freud, estas lembranças ficarão armazenadas no inconsciente, esperando a oportunidade de serem recuperadas, agora com a ajuda da ciência que ele inventou e que denominou de psicanálise; antes que possa ser mal entendido, preciso dizer que sou apenas um modesto estudioso do assunto.

É sabido que Freud gostava de discutir com seus pacientes a razão da sua coleção de antiguidades, dando explicação entre as diferenças psicológicas que existem entre o consciente e o inconsciente; enquanto que o nosso consciente sofre o desgaste da vida cotidiana, o inconsciente permanece quase que inalterável, dizia ele. Freud dizia para alguns de seus interlocutores que ele era, também, um arqueólogo, só que ao invés de utilizar os instrumentos manuais próprios daqueles profissionais (enxada, pás, picareta), utilizava com seus pacientes histéricos, em substituição à tradicional anamnese médica, outro método de investigação que era capaz de fazê-los falar sobre os sintomas que os atormentavam; naquela fase inicial de suas investigações Freud assumiu a hipótese, perigosa para a época, da etiologia sexual da histeria.

Para tentar convencer seus pacientes e, principalmente, a classe médica da época sobre esta sua teoria, utilizava-se de metáforas, dentre elas destaco a que utilizou na sua famosa conferência “Etiologia da Histeria” proferida em 1896, que provocou tanta reação, às vezes agressiva, por parte da classe médica que lotou o auditório da Sociedade Médica de Viena para ouvi-lo.

Acho, disse ele: – que poderá haver outro meio de se chegar à etiologia da histeria, sem o auxilio consciente do paciente, pois sabemos que o dermatologista poderá diagnosticar a sífilis pelas características visuais de uma lesão, embora o paciente possa negar o contato sexual com um paciente infectado; na histeria ocorre o mesmo, podemos descobrir as suas causas a partir de sintomas, aparentemente sem importância para o paciente, porém esclarecedores para o médico conhecedor da nova técnica que estou propondo, a psicanálise.

Para que possam entender este novo método de investigação, recorro a uma nova comparação: suponhamos que um explorador chegue a um determinado lugar, onde existem algumas ruínas, restos de muros, fragmentos de colunas e algumas lápides com inscrições inelegíveis; ele pode simplesmente interrogar alguns habitantes da região, obter informações sobre aquelas ruínas e sua história, tomar notas das respostas e prosseguir sua viagem.

No entanto, ele poderá, se tiver alguns instrumentos úteis para o trabalho de arqueologia, fazer outra coisa: conseguir auxílio de alguns habitantes do local e fazer um trabalho de escavações e descobrir, a partir das ruínas que eram vistas, o que estava sepultado; se tiver êxito na empreitada, os descobrimentos se explicam por si mesmos (os restos de muros eram o recinto de um palácio, os fragmentos das colunas, poderiam pertencer a um templo, as inscrições nas lápides poderiam ser um novo alfabeto de um idioma, cuja tradução poderia indicar insuspeitados dados sobre o ocorrido no passado e em comemorações dos quais foram erigidos aqueles monumentos).

O que mais escandalizou o auditório foi a sua afirmação final: “A causa da histeria está escondida no inconsciente e o seu conteúdo será, necessariamente, sexual e acontecido na fase infantil e que foi apagado do consciente pela tendência defensiva contra uma penosa recordação inconsciente”.

Felizmente, a maioria dos acontecimentos ocorridos na infância e que ficou escondida no inconsciente, não são traumáticos, podendo ser, pelo contrário, até bastante prazerosos, se recuperados.